
"Por trás da palma da mão contra o peito, por trás do pano da camisa entre massas de carne entremeadas de músculos, nervos, gorduras, veias, ossos, o coração batia disparado. Você vai me abandonar – repetiu sem som, a boca movendo-se muito perto do fone – e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o daqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida em silêncio no prato."
Caio Fernando Abreu.
Pego minha bagagem de mágoas e sigo (espalhando um pouquinho em cada canto). Aos poucos me sinto mais leve, mais dócil. Sinto que o sabor amargo do meu coração se restringe (aos poucos) que tem o privilégio de não deterem de mim apenas a indiferença cinzenta. Preciso enxergar antes que o mundo escureça. Tanta coisa pra ver (ainda não sei se consigo sozinha).
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Leros Leros