sexta-feira, 12 de março de 2010

Acho bonita a forma suave que a vida ajeita: a gente cai e os segundos da queda às vezes parecem irritantemente intermináveis. A poeira com pedrinhas cravejadas no joelho arranhado, as lágrimas empoeiradas tom marrom nos olhos impedindo a visão límpida, os cílios agarrados às pálpebras, as mãos marcadas pelo chão duro que juravam ter forças suficientes para impedir o impacto da queda. Dor, choro (silencioso ou gritante), testa franzida, olhos avermelhados e lábios apertados movimentando na tentativa de segurar o choro engasgado. São os momentos de queda. A gente chora feito criança, e nem precisa ser mimada. Perguntas sussurradas e confusas: “Por que não pisei diferente? Por que não passei por um caminho alternativo? Por que justo comigo?” São os porquês que nunca tem nada a dizer e só dão a amarga sensação de frustração. E só você, com toda a sua bagagem, que consegue entender a magnitude do caos que é a queda na sua vida e os impactos embrulhados nela.

A boa notícia é que depois da queda você se levanta. Tira as pedrinhas da mão, sacode a roupa encardida, levanta a cabeça, ajeita os desajeitados cabelos ensopados por lágrimas torpes, limpa o rosto salgado e ensaia passos meditativos. O que se pode fazer é voltar um pouquinho e teorizar sobre a singularidade do que te fez cair. São as corriqueiras tentativas pra tentar não cair de novo, não doer de novo, não chorar de novo, não frustrar de novo. E a gente consegue?

Depois de incontáveis quedas a gente acaba finalmente enxergando com olhos chorosos o quanto elas são necessárias pra que os passos sejam compassados alternados em equilíbrio e suavidade. E a gente precisa de muita delicadeza e sensibilidade pra ver com esses olhos pluralísticos, desembaçados e poéticos os entraves da queda. E depois de todos esses rituais a gente precisa (ainda) catar forças e insistir em colocar risos e mais risos largos no rosto marcado por quedas já esquecidas na memória. E a gente segue, e a gente cai, e a gente cresce e aí vem o gosto de alívio, já não mais amargo: a queda é para todos e o levantar também.

3 comentários:

  1. "Fiz a escalada da montanha da vida
    removendo pedras e plantando flores".

    Cora Coralina

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  2. "Façamos da interrupção um caminho novo.
    Da queda um passo de dança,
    do medo uma escada,
    do sonho uma ponte, da procura um encontro"!

    Fernando Sabino

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